Sunday, March 31, 2013

1969 - TV Educativa

Visão
18/7/1969



AS LIÇÕES DA TV EDUCATIVA
A brilhante teoria de Marshall McLuhan, o filósofo da Idade Eletrônica, segundo a qual em matéria de comunicação de massa mais conta o veículo do que a mensagem, teve espetacular confirmação nas últimas semanas em São Paulo, com o lançamento no ar dos primeiros programas da nova TV Educativa.

Apesar das profundas incertezas que obviamente dominaram a programação do novo Canal 2, desde o primeiro dia essa iniciativa pioneira do Governo paulista foi um sucesso. A novidade passou a ocupar as conversas domésticas e a maioria dos chefes de família encontrou motivos de se congratular por ter conseguido que tanto a esposa quanto os filhos ficassem vendo o Canal 2, após o jantar, sem que ninguém sugerisse trocar de estação.

Os primeiros levantamentos feitos pelo IBOPE mostraram que a nova iniciativa estava ganhando rapidamente um público considerável, subtraído da audiência das televisões comerciais, e talvez conseguido da larga porcentagem de aparelhos desligados que costuma dominar as estatísticas da televisão brasileira. Já na primeira semana, o Canal 2 passou à frente, nos índices do IBOPE, de pelo menos um dos cinco canais de televisão comercial de São Paulo.

Várias das noções transmitidas pelo Canal 2 (como as que acompanham a previsão meteorológica) eram tão antigas quanto o curso primário feito pelos telespectadores. Mas, vistas pelo vídeo e embelezadas por alguns recursos audiovisuais, elas ganharam em atração, se não em novidade.

Esta especial atração oferecida pelo vídeo - acrescida da insaciável sede de informação cultural que domina o público brasileiro - explica o êxito da TV Educativa de São Paulo. A comparação pura e simples entre o que ela tinha a oferecer a noite ao espectador e os usuais programas amontoados no vídeo pela improvisada e gananciosa televisão comercial levou o crítico de um jornal paulista a exclamar, com algum exagero, que finalmente a TV havia feito o seu ''reencontro com a dignidade humana".

A diferença - Realmente, o confronto entre as estações comerciais e o Canal 2 é espantoso, mas isto serve especialmente para sublinhar o baixo nível a que caiu a televisão no Brasil. Enquanto muitos elogiavam a qualidade dos documentários da TV Educativa (quase todos adquiridos na Europa e nos EUA e dublados em português ), outros não deixavam de notar que em várias áreas faltava à estação a audácia necessária para realmente renovar o desolado cenário da educação brasileira.

Em primeiro lugar, diziam esses críticos na semana passada, a TV Educativa não havia ainda resolvido um problema básico, o de definir a que público deseja dirigir-se.

Jocosamente, afirma-se que a TV Educativa está dilacerada entre duas tendências opostas, a ''tendência Chacrinha'' e a ''tendência Rádio Eldorado". A primeira tendência, obviamente, seria tentar a conquista de um grande público de baixo nível, por meio de programas tão vulgares e banais quanto a famosa ''Buzina do Chacrinha", condimentados por algumas instruções educacionais práticas, tais como ''não cuspa" ou ''use o lenço na hora de espirrar".

A segunda tendência, que se revela claramente na programação do Canal 2, é simplesmente dirigir-se ao público de elite, oferecendo-lhe concertos sinfônicos, peças de teatro, programas de alto nível.

Para a TV Educativa, a luta entre as duas tendências apontadas terminou no meio-termo.

Desafio sem resposta - Nas primeiras semanas, após algumas hesitações, a nova emissora pareceu ter decidido concentrar-se na classe média de baixo nível de educação, tentando ajudá-la em seus esforços de ascensão social e cultural.

Com esta decisão, entretanto, ela deixou exatamente de beneficiar o setor mais pobre da população paulista - e o mais necessitado de educação. Por exemplo, a TV Educativa não deu qualquer passo, nem mesmo tímido, para enfrentar o que é certamente o mais fascinante desafio da Idade Eletrônica - a alfabetização em massa pela televisão.

Será realmente possível ensinar um analfabeto a ler e escrever pela TV? A esta pergunta a TV Educativa de São Paulo não tentou responder, e em seus relutantes ensaios em direção à educação de massa ela se revela muito mais presa a Gutenberg do que a Faraday - como diria Marshall MoLuhan.

De fato, em seu Curso de Madureza, por exemplo, ela achou necessário ajudar seu aluno com fascículos periódicos, e submetê-lo depois a um exame - todos indícios de que os organizadores desse curso pensam no vídeo mais como um introdutor do veículo tradicional da educação, que é o livro. Não se fez aí, novamente, por falta de audácia, a tentativa de transformar o vídeo no meio preponderante de educação de massa, desligado inteiramente da palavra escrita e de alguns vícios típicos da educação brasileira, como o tradicional diplominha de fim de curso.

Comentava há dias um observador:

"Embora o curso seja a parte mais interessante da programação, sua orientação é hesitante: existe a vontade de inovar, mas também o receio de sair dos trilhos tradicionais, das aulas que destacam os pontos de exame. Aliás as explicações do fascículo revelam à velha tendência da "fábrica de diplomas". Esse não pode ser o fim visado pela TV Educativa. O Madureza é um meio de elevar o nível intelectual global, para um melhor entrosamento na comunidade, e não de fornecer informações que serão esquecidas após a obtenção do diploma.

''Embora televisionado, o ensino continua livresco Não é raro encontrar na Tv-Educativa pessoas que evidentemente consideram a televisão como um complemento do livro e não a encaram como capaz de motivar e ensinar. Os professores escrevem textos para serem publicados, a partir dos quais os produtores elaboram os roteiros, ou seja, os programas são pensados verbalmente e não sob forma de imagem e som. Assim, nunca se elaborará uma linguagem de TV. É necessário também aproximar o conteúdo dos alunos, eliminando todos os pontos a decorar sem que se saiba porque, e eliminando também a forma de aula. Atualmente, a maioria dos programas não passa de aulas dadas por um professor com a ajuda de slides e de um sorriso de apresentador."

Esta impressão de que a TV Educativa se via simplesmente como um quadro-negro transferido para dentro da sala de jantar de seu público ganhou relevo como resultado de uma campanha publicitária feita ao ser inaugurada a emissora ''Muito tarde para voltar à escola?"; perguntava-se no anúncio a uma senhora idosa, sentada num banco escolar, e a resposta era: ''Não, graças à TV Educativa". Mas o banco escolar, tosco e incômodo, reforçava a impressão de que, para os responsáveis: pela nova TV, ensino era necessariamente chato e indigesto.

E, ao contrário - pensam muitos em São Paulo -, a TV Educativa deveria ser a primeira a compreender que não há nenhuma incompatibilidade entre ensino e comunicação de massa, e que atualmente os veículos de comunicação de massa já informam muito mais do que a escola.

Esperavam-se do Canal 2 documentários sobre problemas nacionais, realizados num nível técnico comparável ao das televisões dos EUA e da Europa. Esperavam-se discussões sobre temas culturais, científicos e de atualidade, conduzidas por especialistas respeitados nos diversos campos.

Mas não é raro assistir na TV Educativa a programas nos quais a improvisação e o amadorismo chegam ao nível comum dos canais comerciais. Algumas gravações são improvisadas, com microfones e iluminação acertados na hora. Os apresentadores nem sempre impressionam, e alguns foram recrutados nos setores mais improváveis - como o setor esportivo da TV comercial, reconhecidamente uma área em que sobeja a escassez de talento.

Extremamente bem acolhido, por outro lado, tem sido um programa de ensino do inglês, no qual substantivos e frases são demonstrados praticamente, com o desenrolar de uma história engraçada. É nesse sentido que deve desenvolver-se a programação da TV Educativa.

Na Guanabara - Enquanto em São Paulo as primeiras experiências são feitas já praticamente com uma audiência calculada em pelo menos 100 mil pessoas, na Guanabara a criação da TV Educativa vem esbarrando num obstáculo concreto: a falta de um canal disponível para seu funcionamento.

Mas Gilson Amado, presidente da Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa, não está pessimista. Ele acha que de qualquer modo a instalação de uma emissora para fins didáticos exige uma fase preparatória extensa, a formação de técnicos e a definição de métodos.

Diz ele que está definitivamente deflagrado no Brasil ''o processo de implantação da Tv-Educativa, sendo possível prever-se dentro de três anos a criação de duas dezenas de estações".

Mas quando terá o Rio a sua TV Educativa? As indicações são por enquanto pouco encorajadoras. Acredita-se que a oferta de publicidade para televisão já seja pequena demais para as cinco emissoras comerciais em funcionamento, e que um novo canal mesmo subvencionado pelo Estado, de modo parcial, não teria uma fonte de renda suficiente para sobreviver. (Em São Paulo, a TV Educativa é inteiramente mantida pelo Estado e não aceita anúncios comerciais.) O Governo do Estado da Guanabara reservou em seu orçamento deste ano a verba de 300 mil cruzeiros novos, à espera de uma iniciativa concreta, como talvez a aquisição de um canal comercial já existente.

Tais decisões dependem principalmente do Contel, que mantém silêncio quanto a suas intenções Entre os canais que eventualmente poderiam ser aproveitados por uma Tv-Educativa carioca estão o Canal 7 ( Rádio Nacional) e o Canal 11 (Rádio Jornal do Brasil), que já foram concedidos, mas ainda não estão funcionando.

PARTICULAR OU ESTATAL? - Na América Latina, os canais de televisão pertencem ao Estado que os cede temporariamente a empresas privadas, para sua exploração.

Na maioria dos países, há uma legislação que controla a TV, inclusive quanto ao seu nível cultural (exigências de programas noticiosos, culturais, qualidade da publicidade, etc.), porém raramente essa legislação é respeitada.

Existe na América Latina tanto a TV comercial quanto a TV estatal.

A TV comercial vive de publicidade e está portanto ligada ao poder aquisitivo local Na Venezuela, verificou-se, em certos horários, até quarenta minutos de publicidade por hora.

Sem controle nem planejamento a TV, entrando no jogo da cimpossivel\impossível, se desenvolve anarquicarnente: a América Latina tem uma das redes mais densas do mundo. Montevidéu tem quatro canais para uma população de cerca de 1,5 milhão de habitantes; Lima tem sete canais para 2,5 milhões. Tão abundantes canais disputam entre si uma publicidade cujo volume, nos países que têm poucos produtos de consumo para anunciar ou que se encontram em crise econômica, é insuficiente para alimentá-los. O caso do Uruguai e típico: as emissoras sobrevivem com dificuldade e tendem a se limitar à transmissão de filmes importados e de filmes publicitários.

A TV estatal oferece um panorama pouco alentador. Os governos manifestam em geral seu interesse pela TV quando precisam dela como veículo imediato de informação ou de propaganda. Por isso, o aparecimento das TVs estatais costuma dar-se em regimes fortes: o Canal 7 surgiu na Argentina em 1951, no Governo Peron; o mesmo se deu em 1954 na Colômbia, com o Governo Rojas Pinilla.

O seu lançamento é cercado dos maiores cuidados, servindo assim interesses políticos momentâneos. Em seguida, elas começam a decair por falta de verbas: por um lado, passa o momento político de seu lançamento; por outro, os governos e mesmo certos dirigentes das próprias TVs consideram o lançamento a etapa mais difícil, quando o mais difícil e o mais caro é manter uma programação atualizada. Assim, as TVs estatais não só transmitem uma cultura estratificada, como se encontram incapazes de competir com as TVs comerciais, e mesmo de acompanhar os programas culturais e educativos dos próprios governos em todos os setores.

A TV estatal venezuelana tem apenas 1,2% da. audiência. Na Colômbia, a TV estatal tentou superar a situação aceitando publicidade comercial, sem por isso conseguiu equilibrar-se, visto que seus preços eram inferiores aos cobrados pelas TVs comerciais.

Assim, levará algum tempo para descobrir-se, na prática, qual a opção mais correta: a TV particular ou estatal se é que o problema já existe por aqui.

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